sábado, 11 de dezembro de 2010

Taurus PT 99

2

Subi aquelas escadas desfalecidas, cheguei no 103, tirei a chave do bolso de trás do jeans, errei o buraco da fechadura uma, duas, três vezes. Devia estar realmente cansado, definitivamente, eu estava muito cansado, os ombros pesavam, algo parecia montar nas minhas costas, como se quisesse me postar de joelhos, me atirar ao chão. Acendi a luz, joguei a chave sobre a escrivaninha, olhei em volta e percebi que tudo estava exatamente como deixei, afinal, hoje é quinta, e a Lurdes não passa para arrumar minha bagunça ás quintas-férias. Desfiz-me impaciente de minha camisa e a joguei no sofá pálido da sala que parecia me fitar com pena. Lurdes certamente me chamará atenção amanhã por causa da camisa suada jogada no sofá.

A caminho da cozinha quase tombei involuntariamente, minha visão embaçava, não me lembro de ter me sentido assim antes, algo realmente sem precedentes. Na geladeira, o de sempre, eu estaria realmente ferrado se a Lurdes não cuidasse da minha alimentação, não sei o que seria de mim. Mesmo naquele estado fatigado, desfalecido, não fui pra cama, hoje eu decididamente não iria pra cama, hoje era um dia especial. A varanda me pareceu mais amigável, de lá eu podia ver a praça, observar as pessoas sentadas conversando ou apenas no seu cooper noturno. Gosto de olhar pessoas e imaginar sobre suas histórias de vida, sempre me distraia com algo assim, mas meus olhos não me obedecem, eles se fecham gradativamente, como uma contagem regressiva.


Chão gelado, mas ei, não me lembro de ter sentado, acho que se Lurdes me visse nesse estado certamente iria questionar se ando usando drogas. Mas não creio que droga alguma cause efeito parecido nas pessoas, não teria porque se viciar em algo que te deixa tão esgotado, tão vazio. Tenho a impressão que cochilei, meus olhos não estão mais tão pesados e a praça está silenciosa, acho que está na hora. Acho que seria bacana buscar uma trilha sonora para a situação, mas creio que não seria capaz de encontrar.

Fui ao quarto, guarda-roupas, terceira gaveta, abaixo da gaveta das cuecas, lá estava o que procurava, fui caminhando com ela em mãos até a varanda, dei uma última olhada na praça, contemplei a brisa, beijei a imagem do crucifixo e lembrei que vi em algum lugar que para ser efetivo teria que atirar na cabeça, pois em outra parte do corpo poderia não dá certo, e isso eu tinha que fazer direito, senti o cano gelado tocar minha cabeça, meu juízo… Pelo menos não estarei aqui amanhã para ver a cara da Lurdes ao se deparar com a sujeira que vou fazer.

2 comentários:

Anonymous disse...

Excelente, parabéns

Andreia disse...

A busca pela verdade nem sempre é conquistada,mas a vida jamais deve ser desprezada. Se precisar te empresto o meu pescoço.

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