sábado, 25 de dezembro de 2010

Podem se servir

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Ele estava nervoso, suando, olhava para o relógio que continuava a avançar, em volta ouvia risos e uma conversa animada, todos pareciam indiferentes a sua angústia.  

Sua mãe havia lhe dado a importantíssima missão de escrever um pequeno discurso sobre o Natal, para ser lido durante a ceia, na presença de todos os familiares e amigos da família. A casa estava cheia, pessoas que ele nem conhecia, parentes genéricos, ele se sentia em um pensionato de loucos, tudo parecia querer matar nele qualquer espírito natalino.

Ele podia fazer como a maioria das pessoas e comprar ou copiar a mensagem de um Cartão de Natal, mas ele não queria isso, para ele aquelas mensagens eram muito impessoais, pasteurizadas, incapazes de realmente expressar os sentimentos das pessoas. Ao mesmo tempo ele pensava em quanto de verdadeiro realmente havia naquilo, pessoas que não se falavam há muito tempo se reconciliam, perdões são dados, seria isso “espírito de natal”? Normalmente ele chamaria isso de hipocrisia, mas hoje havia algo especial nas pessoas, o próprio ar estava diferente, qualquer coisa que não existe e que apenas o nascimento de um Deus poderia criar, uma dessas coisas que os homens ainda não inventaram palavras para expressar.

Depois de muitas voltas e divagações ele voltou ao ponto de partida para descobrir que ainda não tinha escrito nada, as palavras fugiam dele, ele estava descobrindo que escrever é como tentar engarrafar nuvens ...

Imerso em pensamentos ele é subitamente interrompido por sua mãe, a ceia estava pronta e todos estavam a espera dele, ele caminhava lentamente, como se quisesse ganhar todo tempo possível, tudo parecia ficar em câmera lenta, ele tomou seu lugar a mesa e nesse momento foi anunciado que ele faria um pequeno discurso, o turbilhão de vozes e a algazarra de risos que tomavam conta da sala logo se tornaram um silêncio sepulcral, todos os olhos se voltaram para ele.

Atordoado, com a garganta seca, a voz parecia não querer sair, olhando em volta era possível perceber a impaciência de alguns, a mão que segurava uma folha de papel em branco começava a tremer. Percebendo a situação a mãe deu-lhe um tapinha nas costas, nesse momento ele inspirou com toda a força, buscava o ar como se estivesse se afogando em palavras que insistiam em não sair. Então sem parar para pensar ele começou a falar:

- Feliz Natal e podem começar a se servir!

Os aplausos choveram sobre ele.

2 comentários:

Andreia disse...

Legal, nos meus quinze anos mandarão eu discursar, eu quase sai correndo ,mas fiquei e agradeci a presença de todos. Quase vomitei , hoje penso que deveria ter corrido ,teria certamente sido mais emocionante,eu teria chegado exatamente onde estou hoje , só que com mais graça.

Icelo disse...

Em geral nos preocupamos demais,pensamos demais, quando na maioria das vezes a solução vem da forma mais simples, mais natural.

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