domingo, 16 de janeiro de 2011

O Escarlate do Fim

3

Últimos dias. Estava encostado no parapeito da janela e via aquela imensa bola de fogo incandescente. Eles nos avisaram, falaram de esperanças, falaram de garantias, falaram de sobrevivência, mas sentia em meu intimo que a mentira reconfortante seria melhor que a verdade. A verdade de que todos nós estaríamos condenados por essa força maior e incontrolável que vem sem avisar e destrói sem deixar rastros.

Era dia e aquela bola escarlate estava cada vez mais próxima de nós como uma bomba relógio avisando o fim. Da janela avistava várias singularidades, pessoas oravam aos céus, outras choravam desesperadas, algumas abraçavam desesperadamente seus familiares e entes queridos. O governo já tentará todas as formas possíveis de pará-lo, mas tudo em vão, sua força colossal fazia-o vir para nos julgar “O juízo final” era o que alguns falavam. Pessoas em sua insanidade ou instinto de sobrevivência subiram montes e montanhas a fim de proteger-se. Como eram tolas. Aquela bola escarlate aniquilaria tudo e a todos. Não adiantava onde estivesse na terra o sopro da morte chegaria até você mais cedo ou mais tarde.

Restava pouco tempo até a aniquilação, eu estava calmo, talvez tivesse aceitado tudo abertamente, de que o mundo que conheço deixaria de existir e tudo que faria daqui em diante não teria mais sentido nenhum. Minha vida, minhas lembranças, minha existência tudo isso agora era fútil e desnecessário para mim. Ou talvez ao invés de tudo isso estivesse ficando louco como muitos. Alguns muitos desses que também se mataram para evitar o sofrimento por mais tempo de perder tudo e todos.

Só uma coisa passava em minha mente nesses dias sombrios, o desejo de ver a única pessoa que amei em toda minha vida, uma última vez, um último olhar, um último toque, uma última palavra. Por que a perdi tão cedo? Deus, se ele existir não deve me amar de modo algum. E mesmo agora perto do fim meu desejo de vê-la é maior do que tudo. Pouco me importa o desespero dessas pessoas, pouco me importa Deus, pouco me importa o mundo! Só desejo aquele sentimento quente e confortável de volta.

Afastei-me um pouco da janela, fui à cama, onde a foto dela estava ao lado da mesma. Olhei-a atentamente talvez receasse esquecer seu rosto nos momentos finais. Sentei-me na cama as lágrimas caíram, há muito tempo não caiam, estava com esse sentimento engasgado e agora colocará tudo para fora.

Agora minha muralha caíra e finalmente esses sentimentos chegaram a mim. Deitei-me e deixei fluir, olhando para a foto dela adormeci torcendo para ver seu rosto angelical em meus sonhos.

Chegara o dia do juízo, aquilo estava perto demais. O céu escureceu, ouviram-se gritos, um grande barulho seguiu-se, um som de caos e destruição tomava forma, a terra começou a estremecer talvez esse fosse o sinal que a bíblia tanto fala no Livro de João “o soar da sétima trombeta” e a sétima estava para soar anunciando o fim de tudo na terra. Olhei para a janela e uma onda de morte e dor estava chegando, qualquer reação era inútil contra aquilo então aquele sopro escarlate de morte chegou até minha existência mortal e nesse momento ouve um lampejo em minha mente e assim disse para mim mesmo:

“Finalmente irei revê-la, talvez Deus não seja tão ruim”.

3 comentários:

camis . disse...

Perfeito, sem mais.

Deneb disse...

Valeu pelo elogio. Nós fazemos isso para agradar vocês.

Andreia disse...

Quando amamos de forma unica, este amor sempre encontra uma forma de se manifestar.

Postar um comentário

 
Design by ThemeShift | Bloggerized by Lasantha - Free Blogger Templates | Best Web Hosting

Licença Creative Commons
Contos Perpétuos is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License.